quinta-feira, 14 de julho de 2011

Você sabe com quem está falando?




De vez em quando em meios sociais ou ambientes de trabalho, neste último talvez  com menos freqüência, sempre aparece aqueles que se consideram superiores como seres humanos. Alguns porque tem um emprego mais valorizado, outros porque exercem uma função de mais destaque, outros por serem celebridades, sem falar nas autoridades políticas, sejam elas dos poderes executivo, legislativo ou judiciário, que num flagrante abuso de autoridade, fazem esta arrogante pergunta. Mas venha de onde vier, o objetivo é sempre o mesmo; amedrontar, amordaçar, diminuir, de tirar do outro as vezes o pouco de dignidade que ainda lhe resta como cidadão.                                  
Nos que fazemos parte da igreja nos sentimos seguros. Achamos que neste ambiente de amor, igualdade, fraternidade e inclusão, estamos imunes a este comportamento tão execrável. Puro engano!
   A não muito tempo atrás presenciei este tipo de bullyng, quando um Diácono, encarregado da organização de um evento, no exercício de sua função, pediu educadamente que um determinado Pastor aguardasse por alguns minutos sua entrada ao recinto. Não deu outra! Foi imediatamente surpreendido por esta “cordial”pergunta: “Você sabe com quem está falando”? Atitude deplorável de um cidadão que deveria dar demonstração de humildade no seu mais elevado padrão. Acho que poucas frases nos enervam mais do que esta, por causa da sua arrogância e prepotência característica. As vezes, passada a emoção do momento, de cabeça fria, analisamos o ocorrido e ficamos chateados de não termos dado uma resposta adequada para aquela situação. Quem sabe um “quem você pensa que é?” Bom! deixa pra lá, não vamos descer ao mesmo nível desse “cadáver adiado” como disse Fernando Pessoa.
Há pessoas que tem baixa auto-estima, e diante de uma situação como esta se diminui ainda mais, porque há tendência natural de se comparar neste caso com o ofensor, e com isso se considerar um fracassado e indigno. Neste instante ele está cometendo um crime contra sua própria inteligência. Há muitas pessoas que engole o desaforo para dentro de si, e isto tem um efeito devastador. Muitas pessoas com algum nível de distúrbio psicológico tem numa humilhação desse porte a sua origem.
Augusto Cury escreveu: Quem se diminui perante outros, sejam eles celebridades ou líderes sociais, nunca conheceu sua própria complexidade. [1]
Retomando o exemplo da humilhação social proveniente dessa pergunta, há uma opção de resposta sugerida pelo brilhante Mário Sergio Cortella, que é a seguinte:
“Um dia procurei representar uma possível resposta científica a essa arrogante pergunta, e, de forma sintética, registrei essa representação em um livro meu, agora, de forma mais extensa e coloquial, aqui vai este relato, partindo do nosso lugar maior, o universo, até chegar a nós.
Hoje, em física quântica, não se fala mais um universo, mas em multiverso. A suposição de que exista um único universo não tem mais lugar na Física. A ciência fala em multiverso e que estamos em um dos universos possíveis. Supõe-se que este universo possível em que estamos apareceu há 15 bilhões de anos. Alguns falam em 13 bilhões, outros em 18, mas a hipótese menos implausível no momento é que estamos num universo que apareceu há 15 bilhões de anos, resultante de uma grande explosão.
Qual é a lógica? Há 15 bilhões de anos, é como se se pegasse uma mola e fosse apertando, apertando, apertando até o limite, e se amarrasse com uma cordinha. Imagine o que tem ali de matéria concentrada e energia retida! Supostamente, nesse período, todo o universo estava num único ponto adensado, como uma mola apertada e, então, alguém, Deus, cortou a cordinha. E aí, essa mola, o nosso universo está em expansão até hoje. E haverá um momento em que ele chegará ao máximo de elasticidade e irá encolher outra vez. A ciência já calculou que o encolhimento acontecerá em 12 bilhões de anos.
Assim, há 15 bilhões de anos, houve uma grande explosão atômica, que gerou uma aceleração inacreditável de matéria e liberação de energia. Essa matéria se agregou formando o que nós, humanos, chamamos de estrelas e elas se juntaram, formando o que chamamos de galáxias (do grego galaktos, leite). A ciência calcula que existam em nosso universo aproximadamente 200 bilhões de galáxias. Uma delas é a nossa, a Via Láctea, que é “leite”, em latim. Aliás, nem é uma galáxia tão grande; calcula-se que ela tenha cerca de 100 bilhões de estrelas. Portanto, estamos em uma galáxia, que é uma entre 200 bilhões de galáxias, num dos universos possíveis e que vai desaparecer.
Nessa nossa galáxia, repleta de estrelas, uma delas é o que agora chamam de estrela-anã, o Sol. Em volta dessa estrelinha giram algumas massas planetárias sem luz própria, nove ao todo, talvez oito (pela polêmica classificação em debate). A terceira delas, a partir do Sol, é a Terra. O que é a Terra?
A Terra é um planetinha que gira em torno de uma estrelinha, que é uma entre 100 bilhões de estrelas que compõem uma galáxia, que é uma entre outras 200 bilhões de galáxias num dos universos possíveis e que vai desaparecer. Veja como nós somos importantes….
Nesse lugarzinho tem uma coisa chamada vida. A ciência calcula que em nosso planeta haja mais de trinta milhões de espécies de vida, mas até agora só classificou por volta de três milhões de espécies. Uma delas é a nossa: homo sapiens. Que é uma entre três milhões de espécies já classificadas, que vive num planetinha que gira em torno de uma estrelinha, que é uma entre 100 bilhões de estrelas que compõem uma galáxia, que é uma entre outras 200 bilhões de galáxias num dos universos possíveis e que vai desaparecer.
Essa espécie tem, em 2007, aproximadamente 6,4 bilhões de indivíduos. Um deles é você.
Você é um entre 6,4 bilhões de indivíduos, pertencente a uma única espécie, entre outras três milhões de espécies classificadas, que vive num planetinha, que gira em torno de uma estrelinha, que é uma entre 100 bilhões de estrelas que compõem uma galáxia, que é uma entre outras 200 bilhões de galáxias num dos universos possíveis e que vai desaparecer.
É por isso que todas as vezes na vida que alguém me pergunta: “Você sabe com quem está falando?”, eu respondo: “Você tem tempo?”’ [2]


[1] O código da inteligência, Cury, Augusto, Ed. Ediouro
[2] Qual é a tua obra? Cortella, Mario Sérgio, Ed Vozes

Um comentário:

  1. Antonio Carmino de Oliveira Neto8 de setembro de 2011 11:01

    Sem contar que só no sistema solar existem 4 planetas maiores que a Terra.

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