terça-feira, 2 de agosto de 2011

Credos e confissões




Existe por parte dos teólogos o reconhecimento de que algumas doutrinas são mais importantes que outras, que pode ser estabelecido uma graduação, uma separação entre doutrinas essenciais e não essenciais. De modo geral podemos dizer que todas as doutrinas possuem o seu valor, mas muitas não fazem parte do cerne do Kerygma apostólico, e por essa razão dentro de uma escala de valores, algumas doutrinas podem ser classificadas até de quinto valor. Os teólogos são unânimes em declarar que há um cerne de verdade que se estabeleceu ao longo dos séculos, sobretudo no período Patrístico, e sobre o qual existe a concordância por todos os cristãos, ou seja: o sine qua non do cristianismo. Doutrinas como a Trindade econômica e a união hipostática, na maneira em que foram afirmadas nos concílios de Nicéia (325) e da Calcedônia (451) respectivamente, estão na categoria dos dogmas que são aceitos por toda a cristandade. E a negação destas verdades se constituirá heresia. Para entendermos melhor esta valoração de doutrinas, é imprescindível conhecer as razões e circunstâncias em que foram formuladas e formalmente aceitas como sendo de caráter inquestionável. As verdades centrais do cristianismo foram amplamente deliberadas em concílios como os citados acima, onde foram elaborados e definidos os credos da igreja. A propósito, é bom entendermos que existe uma significativa diferença entre um credo e uma confissão. Porque a igreja atualmente crê e pratica exatamente as deliberações tomadas nestas assembléias. As confissões geralmente são documentos elaborados por uma igreja para expor sistematicamente as doutrinas defendidas por elas. É limitada a uma tradição específica, como por exemplo: a confissão de Westminster, que faz defesa de um sistema doutrinário estritamente calvinista, e que, na sua estrutura representa a crença de apenas uma ala do cristianismo, portanto, em alguns pontos está muito longe de ser uma unanimidade. Ao passo que um credo, é na sua essência universalmente aceito e defendido por todo o cristianismo. É algo que uniu ao longo dos séculos, e tem unido ainda hoje cristãos em todo o mundo, sejam ortodoxos, católicos romanos ou protestantes. É bom salientar que nem o credo ou a confissão são considerados infalíveis, excetos para algumas correntes teológicas que os coloca no mesmo nível das escrituras. Os protestantes porém, consideram os credos e os decretos dos concílios cristãos, com exceção daqueles que foram realizados pela Igreja romana, como estando em consonância com as escrituras, entretanto esta última é a sua regra de fé e prática. Enfim, na cosmovisão protestante, um credo ou uma confissão pode ser aperfeiçoado e melhorado.
Os cristãos hoje, de um modo geral, estão divididos em duas tradições: o calvinismo e o arminianismo. Dois grupos com posições soteriológicas conflitantes. Contudo concordam entre si em relação às verdades essenciais das escrituras deliberadas nos credos cristãos. E há por parte desses grupos, um reconhecimento geral de que a verdade está em Deus, mas que o ser humano não é Deus e tem apenas uma compreensão incompleta de sua verdade. Por isso ao reconhecermos a importância relativa da verdade que sustentamos, o melhor a fazer é manter o vínculo de unidade e amor, independente de qual corrente teológica pertença. E lembrar que:
No essencial, precisamos ter unidade.
No não essencial, precisamos ter tolerância.
Em todas as coisas, amor.

Um abraço. Donizete

5 comentários:

  1. Antonio Carmino de Oliveira Neto8 de setembro de 2011 11:52

    Aqui cabe uma questão:

    se existe duas correntes conflitantes na soteriologia, como podemos saber se estamos ensinando corretamente a respeito do arrependimento, regeneração, reconciliação, adoção, redenção e glorificação.

    Sempre achei que a doutrina da Salvação seria o cerne do cristianismo.

    Eu sempre achei que as correntes divergiam somente em questões como predestinação, que não afeta em nada em nossa crença a respeito da soteriologia.

    Crenças a respeito da hamartiologia, antropologia, angeologia e até eclesiologia não me preocupam muito quanto as diferentes maneiras de interpretar, já que no meu entender não interfer em nada na obra Redentora de Cristo.

    Certamente temos que ter unidade no essecial, mas no meu entender a soteriologia é essencial, se isso não for essncial qual o propósito da morte do Senhor Jesus em nosso lugar?

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  2. carmino,
    As divergências entre os arminianistas e calvinistas realmente são de ordem soteriológicas.
    São dois sistemas teológicos que tentam explicar de forma diferentes a relação entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana em relação à salvação.
    Geralmente são resumidos em cinco pontos:
    . O Calvinismo defende a “eleição incondicional”, enquanto o Arminianismo defende a “eleição condicional”.
    . O Calvinismo defende a “expiação limitada”, e o Arminianismo defende a “expiação ilimitada”.
    . O Calvinismo defende a “graça irresistível” e o Arminianismo, a “graça resistível”.
    . O Calvinismo defende a “perseverança dos santos”, enquanto o Arminianismo defende a “salvação condicional”.
    . O Calvinismo defende a “depravação total”, enquanto o Arminianismo defende a “depravação parcial”.
    Até mesmo entre os próprios calvinistas há alguns desentendimentos em torno dessa questão.
    Por exemplo: Há aqueles que afirmam que o ato de escolher e reprovar precede a criação (supralapsarianismo). Enquanto outros afirmam que a eleição ocorreu após a criação (infralapsarianismo). Dentro de uma classificação doutrinária se trata de construções teológicas periféricas, secundárias.
    A aceitação ou não de qualquer uma das posições não tem peso,no sentido de influenciar na salvação do indivíduo. A minha reflexão é no sentido de repudiar atitudes de pessoas ou grupos que fazem de assuntos irrelevantes seu "cavalo de batalha",(ultra calvinistas) enquanto outros fazem vistas grossas a temas que representam o cerne da fé cristã.
    Um abraço.

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  3. Donizete, quando um crente se converte e passa a fazer parte de uma igreja, a primeira coisa que lhe é apresentada é a bondade de Deus, a felicidade da comunhão, a alegria da salvação e uma da últimas é a corrente teológica que a igreja segue. Só fui saber o que era arminianismo, calvinismo depois de mais dez anos de igreja e muito superficialemnte e por que fui perguntar. Sempre que se toca nesses assuntos as pessoas resistem falando isso: que o que importa é a salvação, crer em Jesus e tudo mais, só que dependendo da corrente teológica a visão que passamos a ter de Deus varia muito. Por exemplo, a primeira vez que um pastor falou comigo sobre a doutrina da eleição eu fiquei achando Deus muito estranho e muito diferente daquele que eu havia conhecido quando me converti. E depois desse dia, eu fui ler sobre o arminianismo, mas a pulga não saiu mais de trás da minha orelha. O Deus apresentado nos cultos é diferente do Deus apresentado pela teologia.
    Estou pensando errado?
    Se então monergismo, sinergismo, calvinismo, arminianismo, se nada disso importa tanto, o que importa mesmo? Que Deus é bom, Jesus é bom e salvador? Não é isso que todos pregam? Mas se dizemos isso, fica a pergunta qual a verdadeira face de Deus considerando a bíblia como verdade absoluta?
    Por que a face dele não muda muito dependendo da interpretação que cada linha teológica assume?


    Um abraço!

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  4. mariani,

    Uma das piores coisas que pode acontecer a um indivíduo, é ficar preso a correntes doutrinárias. Quando a palavra corrente se refere ao segmento de uma estrutura teológica, ela já traz consigo a conotação de limites de liberdade. Por isso acho meio “pesado” se referir a teologia como correntes.

    Pois a teologia é liberdade de pensamento assim como a filosofia. E só podemos ter nossas próprias convicções se estivermos livres das correntes.

    Por exemplo: uma ala dos cristãos protestantes, estão presos ás determinações de Westiminster. Não ousam nem sequer pensar de forma diferente. Por isso é que dizem que são de corrente calvinista.

    Este debate soteriológico, (monergismo-sinergismo) que na verdade não começou com Calvino e Armínio, mas sim com Agostinho e Pelágio no quarto século, é um nó que talvez nunca seja desatado.

    Tenho minha confissão com viés arminiano, contudo também não limito minha compreensão acerca de Deus somente através da estrutura teológica construída por Armínio.

    Acredito Mariani, que nosso conhecimento acerca de Deus, qual é a sua participação em nossas vidas, que influência Ele exerce sobre nossa vontade e decisões, se faz na nossa experiência com Ele. Como eu disse numa participação minha lá no blog do Edu: “A confissão de fé de quem é inteligente é construída na vida, na existência, no caminho, a estrada se abre enquanto se caminha e o caminho se faz enquanto anda nele”.

    Diante disso que afirmo Mariani, que devemos conhecer todos esses sistemas teológicos. Mas ter entendimento de que são estritamente teóricos. Nada além disso. As contingências é que nos trazem a melhor definição de quem é Deus para nós.

    portanto, não possui a melhor conclusão quem estuda Deus, como os teólogos fazem. Mas sim quem experimenta. E essas experiências não são padronizadas.


    Um abraço.

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  5. Mariani,você disse:

    "Por que a face dele não muda muito dependendo da interpretação que cada linha teológica assume"?

    certa vez um Pastor disse que o calvinismo e o arminianismo são duas grandes árvores. Estão bem arraizadas. E por isso cresceram tanto que suas copas estão acima das nuvens. De modo que nossos olhos não podem ver que lá no céu elas se uniram e entrelaçaram seus ramos.

    De fato poderíamos concluir que o Deus do calvinismo não é o mesmo do arminianismo. Contudo acredito que Deus pavimentou o caminho para as duas confissões chegarem-se a Ele.

    Até mais.

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