Alguém certa vez disse que em Nietzsche o niilismo se tornou
profético e pela primeira vez consciente. Particularmente gosto muito de ler
suas obras, ainda que sua filosofia, em boa parte delas gira em torno da
revolta, e não é difícil de identificar que a causa desse sentimento impresso
em suas palavras é a religião. Sobretudo o cristianismo. Contudo, se ele ataca
particularmente o cristianismo, ele visa apenas à sua moral, os aspectos
cínicos da igreja, o comportamento contraditório de seus ministros, e por que
não dizer, a idiotização de muitos de seus seguidores. Mas é importante
destacar que, em nenhum momento ele atacou diretamente a pessoa de Jesus. Esta,
em seus escritos continua intacta.
Este aforismo, extraído de sua obra Gaya ciência, expõe
verdades que para aceitação do cristão representa cortar na própria carne. Pois
nem sempre as verdades produzem conforto e satisfação, mas são capazes de
acender a luz amarela em nosso caminho envolto pelo romantismo produzido por
uma expectativa solitária do porvir, e esquecemos de viver sabiamente e
salutarmente o agora.
Vamos acompanhar este raciocínio
do pensador:
Os
crentes e sua necessidade de crença.
“A crença é sempre desejada com a máxima avidez, é mais
urgentemente necessária onde falta vontade: Pois é a vontade, como emoção do
mando, o sinal distintivo de autodomínio e força. Isto é, quando menos alguém
sabe mandar, mais avidamente deseja alguém que o mande, que mande com rigor, um
Deus, um príncipe, uma classe, um médico, um confessor, um dogma, uma consciência
partidária.
De onde talvez se pudesse concluir que as duas religiões
universais, o budismo e o cristianismo, poderiam ter tido a razão de seu
surgimento, sobretudo de sua rápida propagação, em um descomunal adoecimento da
vontade. E assim foi na verdade: ambas as religiões encontraram um desejo que,
pelo adoecimento da vontade, se acumulara até a insensatez e chagara até o
desespero, o desejo de um “tu deves”; ambas as religiões foram mestras no fanatismo
em tempos de adormecimento da vontade e com isso ofereciam a inúmeros um
amparo, uma nova possibilidade de querer, uma fruição do querer.
O fanatismo é, com efeito, a única “força de vontade” a que
também se pode levar os fracos e inseguros, como uma espécie de hipnotização de
todo o sistema sensório-intelectual em favor da superabundante nutrição
(hipertrofia) de um único ponto de vista e de sentimento, que doravante domina
– o cristão chama-o de crença.
Onde um homem chega à convicção fundamental de que é preciso
que mandem nele, ele se torna “crente”; inversamente, seria pensável um prazer
e força da autodeterminação, uma liberdade da vontade, em que um espírito se
despede de toda crença, de todo desejo de certeza, exercitando, como ele está,
em poder manter-se sobre cordas e possibilidades, e mesmo diante de abismos
dançar ainda. Um tal espírito seria o espírito livre por excellence.
Mas a religião sossega a mente do indivíduo em tempos de
perda, de privação, de pavor, de desconfiança, portanto, quando o poder se
sente sem condições para fazer diretamente algo para mitigar os sofrimentos de
alma do homem privado: e mesmo diante de males gerais, inevitáveis e, de
imediato, inelutáveis (fomes, crises monetárias, guerras), a religião assegura
um comportamento pacato, paciente, confiante da multidão.”