segunda-feira, 1 de julho de 2013

A fé em milagres posta em xeque





Há poucos dias me falaram de uma moça que foi curada de terríveis dores no corpo em uma igreja pentecostal. Sua família está em festa. Ao mesmo tempo fiquei sabendo de uma senhora desesperada que pedia oração pela vida da sua filha que estava internada já em estado terminal, acometida por um câncer raro. Detalhe, as duas famílias faz parte da mesma comunidade. Naquele instante imaginei o turbilhão de angústias e dúvidas que devem ter invadido a alma daquela mãe que ouve uma pessoa dizer que foi receptora de um milagre, que Deus foi presente agindo em seu favor, enquanto que na sua própria vida, a espera e o silêncio tem sido a resposta. Afinal de contas, é na espera de uma intervenção em momentos oportunos que o crente organiza sua vida.

Na minha ótica particular, não posso crer que Deus atua para os que menos necessitam como fazem os políticos insensíveis e inescrupulosos. Contudo, a fé evangélica invariavelmente é norteada pela lógica contabilista e mercantilista da meritoriedade em detrimento da emergência. Fica pior ainda quando vemos que o modelo adotado evidencia a causalidade como principal fator de punição e recompensa, de modo que; quem recebeu, agradeça! Quem não recebeu, faça por merecer. Evidentemente esse conceito não é admitido pelo religiosamente correto. Porque a rigor, atribui-se a Deus, o livramento de um dentre muitos que são vitimados, colocando-o no grupo de uns poucos privilegiados que de uma maneira ou de outra fazem parte de algum plano secreto divino. Porém, essa construção pode ser desfeita com a ótica de que este “Modus operandis” faz dele um oportunista que usa a desgraça de muitos como trampolim para sua popularidade via aquele que se salvou.

Mas a despeito de tudo isso, e apesar de ter frequentado uma igreja pentecostal por vários anos, nunca me impressionei com os supostos casos de curas e milagres que aconteciam naquele ambiente como respostas à fé, e também nunca me revoltei no caso da ausência deles. Pois acredito que as curas classificadas como miraculosas são na verdade fenômenos que ocorrem por sugestão e/ou são provocados pela alteração do organismo, mas com uma coisa em comum em sua ocorrência: elas sempre possuem como origem os estímulos externos. Milagre para mim, seria o pseudônimo de um evento natural aleatório com probabilidade de atingir um indivíduo também aleatoriamente ou contingentemente. Neste aspecto tanto o evento como o receptor não são previamente selecionados por uma força inteligente. Simplesmente ocorreram. Inclusive, uma coisa parece certa em meios científicos; aquilo que hoje ganha contornos espetaculosos, no futuro será algo comum, natural e até banal.



Andando nessa mesma via, mas lançando mão de pressupostos científicos, certo teólogo afirmou que ele considerava a mecânica quântica a maior ameaça contemporânea do cristianismo. Na verdade ele afirmou que, se alguns resultados dessa teoria forem realmente verdadeiros sua fé pessoal em Deus seria despedaçada. Se acaso eu tivesse a oportunidade de encontrá-lo, lhe diria que não há necessidade de abrir mão por completo da sua convicção, mas sim repensá-la! E a propósito lhe informaria também que a Unicamp, já aponta para a possibilidade de num futuro bem próximo apresentar um aparelho, que é capaz de detectar a presença de algum tipo de energia física no pensamento. 

De maneira simplória, isso significa dizer que nosso pensamento se assemelha ao vento. Não pode ser visto, entretanto é detectável empiricamente e tem força mensurável matematicamente, capaz de realizar alguns fenômenos ditos "paranormais". E fatalmente, se tudo aquilo que prevê esta teoria, for confirmado, muitos aspectos da fé cristã e a reboque, de outras religiões, terão que submeter vários de seus conceitos à uma profunda revisão. Sobretudo no tocante a investigação que envolve as curas e os milagres. Pois esses eventos, tido atualmente como fenômenos metafísicos, sobrenaturais, seriam “rebaixados” à categoria de eventos empiricamente explicáveis, sem serem necessariamente provocados por uma estância superior, o qual chamamos de Deus.



Fico na expectativa que um dia aconteça um estudo conclusivo em relação à esse tema. Primeiramente, pela simples razão das pessoas não precisarem mais sofrer duas vezes procurando motivos e nem o sentido que envolve os fatos que os oprime. Mas sobretudo, pelo fato de quando entendermos um pouco melhor essa questão, iremos excluir Deus dessa injustiça ou fria que nós o metemos. Isto é, de estar na sua vontade à causa pelo sucesso de uns e o fracasso de outros na busca por uma intervenção face às suas demandas.

Donizete

Para comentar esse artigo visite cpfg.blogspot.com

domingo, 12 de maio de 2013

O arcaico no moderno

Foto: O arcaico no moderno

As religiões arcaicas se baseavam na violência e no medo de Deus.

Havia entre elas algo em comum: o conceito de que sacrifícios de sangue seria o único meio de aplacar a ira de seus deuses.

Moisés, seguindo os padrões primitivos e motivado pelas mesmas premissas, elaborou engenhosamente um sistema que tornasse os sacrifícios cruentos viáveis.

A tese central do cristianismo no tocante ao meio de salvação, contém os mesmos mecanismos de bode expiatório presente nestas religiões.

Apesar do moroso avanço dos saberes, o cristianismo percebeu que uma religião para continuar viva precisava parar de matar. As religiões que matavam morreram ali.

Entretanto, o "espanto" diante do poder dos fenômenos naturais, originador da religião, que por sua vez originou no homem o sentimento de culpa, continua presente.

Rudolf Otto disse que o sagrado tem duas faces. Ele é ao mesmo tempo fascinante e repugnante. maravilhosa e temível, necessária e perigosa. Atrai, seduz e dá medo com sua ameaça.

O sagrado tem as vezes uma face angélica, quando traz a uma mensagem que atinge no mais profundo de nós e que nos coloca no caminho a um futuro ou uma alteridade.

Mas assume em outras ocasiões uma face demoníaca, quando nos enclausura e nos imobiliza. Ela é esmagadora e destruidora quando nos impõe o limite de práticas insensatas e de dogmas incompreensíveis que, em vez de nos remeter a Deus, se substituem por Ele. 

Esta face demoníaca nos remete a um sacrifício para ser imobilizada.

O passado chegou ao futuro e o presente voltou ao passado. A religião desperta até no homem pós moderno os instintos mais primitivos.

Donizete Aparecido Vieira

Série reflexões



As religiões arcaicas se baseavam na violência e no medo de Deus.

Havia entre elas algo em comum: o conceito de que sacrifícios de sangue seria o único meio de aplacar a ira de seus deuses.

Moisés, seguindo os padrões primitivos e motivado pelas mesmas premissas, elaborou engenhosamente um sistema que tornasse os sacrifícios cruentos viáveis.

A tese central do cristianismo no tocante ao meio de salvação, contém os mesmos mecanismos de bode expiatório presente nestas religiões.

Apesar do moroso avanço dos saberes, o cristianismo percebeu que uma religião para continuar viva precisava parar de matar. As religiões que matavam morreram ali.

Entretanto, o "espanto" diante do poder dos fenômenos naturais, originador da religião, que por sua vez originou no homem o sentimento de culpa, continua presente.

Rudolf Otto disse que o sagrado tem duas faces. Ele é ao mesmo tempo fascinante e repugnante. maravilhosa e temível, necessária e perigosa. Atrai, seduz e dá medo com sua ameaça.

O sagrado tem as vezes uma face angélica, quando traz a uma mensagem que atinge no mais profundo de nós e que nos coloca no caminho a um futuro ou uma alteridade.

Mas assume em outras ocasiões uma face demoníaca, quando nos enclausura e nos imobiliza. Ela é esmagadora e destruidora quando nos impõe o limite de práticas insensatas e de dogmas incompreensíveis que, em vez de nos remeter a Deus, se substituem por Ele. 

Esta face demoníaca nos remete a um sacrifício para ser imobilizada.

O passado chegou ao futuro e o presente voltou ao passado. A religião desperta até no homem pós moderno os instintos mais primitivos.

domingo, 7 de abril de 2013

Feliciano, a Geni do Brasil.


Foto: Feliciano, a Geni do Brasil.

Onde quer que vá, o Pastor e deputado federal Marco Feliciano é assediado por grupos de manifestantes ligados ao movimento homossexual, que exige sua renúncia ou expulsão da presidência da comissão dos direitos humanos.

Aqui ele representa a Geni da primeira parte da canção do Chico, que em função do seu estilo de vida ideologicamente diferente é humilhada e escorraçada pela sociedade com os dizeres:

Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!

Mas nem tudo é deserto na vida do hostilizado Pastor-político. Pois eis que surge no horizonte, grupos organizados pela nada insignificante ala evangélica, que já ventila a possibilidade de sua candidatura à presidência da república. Estes, mesmo sabendo ser esse patamar político um Zepelim que traz em seu interior uma conspiração contra alguns de seus princípios, pois ali nem sempre se faz o que se almeja, mesmo assim ele seria a solução dos problemas relacionados à defesa de sua tábua de valores morais. Por isso gritam em altas vozes: 

Vai com ele, vai Geni!
Vai com ele, vai Geni!
Você pode nos salvar!
Você vai nos redimir!
Você dá pra qualquer um!
Bendita Geni!

Mas caro Feliciano. Renuncia de vez! E não atente para a proposta de seus pares. Pois esses mais do que ninguém, representa a sociedade hipócrita que no mínimo descuido seu, também ira te escorraçar, não considerando que você passou a noite toda dando pro comandante do Zepelim gigante.


Série reflexões


Onde quer que vá, o Pastor e deputado federal Marco Feliciano é assediado por grupos de manifestantes ligados ao movimento homossexual, que exige sua renúncia ou expulsão da presidência da comissão dos direitos humanos.

Aqui ele representa a Geni da primeira parte da canção do Chico, que em função do seu estilo de vida ideologicamente diferente é humilhada e escorraçada pela sociedade com os dizeres:

Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!

Mas nem tudo é deserto na vida do hostilizado Pastor-político. Pois eis que surge no horizonte, grupos organizados pela nada insignificante ala evangélica, que já ventila a possibilidade de sua candidatura à presidência da república. Estes, mesmo sabendo ser esse patamar político um Zepelim que traz em seu interior uma conspiração contra alguns de seus princípios, pois ali nem sempre se faz o que se almeja, mesmo assim ele seria a solução dos problemas relacionados à defesa de sua tábua de valores morais. Por isso gritam em altas vozes: 

Vai com ele, vai Geni!
Vai com ele, vai Geni!
Você pode nos salvar!
Você vai nos redimir!
Você dá pra qualquer um!
Bendita Geni!

Mas caro Feliciano. Renuncia de vez! E não atente para a proposta de seus pares. Pois esses mais do que ninguém, representa a sociedade hipócrita que no mínimo descuido seu, também ira te escorraçar, não considerando que você passou a noite toda dando pro comandante do Zepelim gigante.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Filhos de Francisco



Foto: Filhos de Francisco

Francisco nasceu em 1181 na cidade de Assis, Itália. Seu pai era um próspero e rico comerciante da roupas e tecidos.

Renunciou toda a sua riqueza e viveu como pregador itinerante. Mas quando não estava viajando em missões passava seus dias em um mosteiro em meditação.

Revigorou o espiritualidade católica com seu trabalho. Sendo o responsável pela fundação da ordem mendicante dos Frades menores, o que mais tarde veio a se chamar de franciscanos.

Uma de suas atitudes mais mencionadas pelos seus biógrafos foi o beijo dado em um leproso jorrando sangue pelos poros. 

Depois de sua conversão não pensava em outra coisa, senão orar e agir em prol dos necessitados. Sua oração, “Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz” ficou registrada em seus anais figurando como parte da liturgia do culto católico.

Até o momento o novo Papa não explicou a razão de preferir ser chamado de Francisco. 

Estaria ele disposto a externar sua visão para além da Europa, voltando sua atenção para o sub-mundo, onde vive cerca de 60% dos católicos que anseiam por uma teologia mais interativa, que participe e responda às suas necessidades emergenciais?

Estaria ele decidido a calçar as sandálias de Pedro não apenas como uma metáfora daquilo que representa sua missão, (calçar sandálias na cultura judaica é sinal de serviço) ou de assumir de fato, livre do simbolismo inerente, sua disposição em sujá-la em solo africano e sul americano? 

Se ele conseguirá promover as mudanças tão almejadas sobretudo pela geração emergente, somente o tempo nos dará a resposta. Mas a escolha do nome Francisco já é um indicador que suas propostas e visão de mundo não serão clichês.

A célebre frase do Santo católico “Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado... Resignação para aceitar o que não pode ser mudado, e sabedoria para distinguir uma coisa da outra...” deve ter inspirado o argentino nesse início de mandato papal.

Mas esperamos que ele seja ainda mais ousado que isso.   Série reflexões.

Francisco nasceu em 1181 na cidade de Assis, Itália. Seu pai era um próspero e rico comerciante da roupas e tecidos.

Renunciou toda a sua riqueza e viveu como pregador itinerante. Mas quando não estava viajando em missões passava seus dias em um mosteiro em meditação.

Revigorou o espiritualidade católica com seu trabalho. Sendo o responsável pela fundação da ordem mendicante dos Frades menores, o que mais tarde veio a se chamar de franciscanos.

Uma de suas atitudes mais mencionadas pelos seus biógrafos foi o beijo dado em um leproso jorrando sangue pelos poros.

Depois de sua conversão não pensava em outra coisa, senão orar e agir em prol dos necessitados. Sua oração, “Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz” ficou registrada em seus anais figurando como parte da liturgia do culto católico.

Até o momento o novo Papa não explicou a razão de preferir ser chamado de Francisco.

Estaria ele disposto a externar sua visão para além da Europa, voltando sua atenção para o sub-mundo, onde vive cerca de 60% dos católicos que anseiam por uma teologia mais interativa, que participe e responda às suas necessidades emergenciais?

Estaria ele decidido a calçar as sandálias de Pedro não apenas como uma metáfora daquilo que representa sua missão, (calçar sandálias na cultura judaica é sinal de serviço) ou de assumir de fato, livre do simbolismo inerente, sua disposição em sujá-la em solo africano e sul americano?

Se ele conseguirá promover as mudanças tão almejadas sobretudo pela geração emergente, somente o tempo nos dará a resposta. Mas a escolha do nome Francisco já é um indicador que suas propostas e visão de mundo não serão clichês.

A célebre frase do Santo católico “Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado... Resignação para aceitar o que não pode ser mudado, e sabedoria para distinguir uma coisa da outra...” deve ter inspirado o argentino nesse início de mandato papal.

Mas esperamos que ele seja ainda mais ousado que isso.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Argumentação em círculos


Foto: Argumentação em círculos

Os judeus acusam o inimigo em parceria com os cristãos de reduzirem a importância de suas escrituras, atribuindo-lhes a alcunha de "Antigo Testamento". 

Um islamita Xiita atribui à obra de Satanás a deturpação de valores expressos no Alcorão.

O cristão fundamentalista, quando se esquece da capacidade investigativa do ser humano, que a rigor coloca em cheque algumas "verdades" da Bíblia, faz o mesmo.

As três tradições, no objetivo de defender a infalibilidade de suas escrituras recorrem a um método falho de apologética, a argumentação circular.

Argumentar em círculos consiste em comprovar a tese da infalibilidade de suas escrituras fazendo uso da própria escritura, cuja validade e autoridade é o objeto de discussão provocado por uma tese contrária.

Dizer que a Bíblia é a "palavra de Deus" porque a Bíblia diz ser a "palavra de Deus", é sair do nada em direção a lugar nenhum em termos de argumentação. E pior... vicia... 


Série reflexões


Os judeus acusam o inimigo em parceria com os cristãos de reduzirem a importância de suas escrituras, atribuindo-lhes a alcunha de "Antigo Testamento". 

Um islamita Xiita atribui à obra de Satanás a deturpação de valores expressos no Alcorão.

O cristão fundamentalista, quando se esquece da capacidade investigativa do ser humano, que a rigor coloca em cheque algumas "verdades" da Bíblia, faz o mesmo.

As três tradições, no objetivo de defender a infalibilidade de suas escrituras recorrem a um método falho de apologética, a argumentação circular.

Argumentar em círculos consiste em comprovar a tese da infalibilidade de suas escrituras fazendo uso da própria escritura, cuja validade e autoridade é o objeto de discussão provocado por uma tese contrária.

Dizer que a Bíblia é a "palavra de Deus" porque a Bíblia diz ser a "palavra de Deus", é sair do nada em direção a lugar nenhum em termos de argumentação. E pior... vicia...

sábado, 2 de março de 2013

O conceito de inferno no imaginário cristão





Série reflexões


No meu entendimento, pouca coisa se aproveita da escatologia tradicional. Sobretudo se relegarmos o Apocalipse de João e o considerarmos como sendo um acréscimo tardio em relação aos demais livros.

Em relação ao inferno, continuo achando intrincado o fato dessa questão só ter começado a ser articulada no final do primeiro século. E ainda tendo em Jesus seu principal articulador? Note que os defensores da perdição eterna, entusiasmados com essa ideia, dizem em altas vozes: "Jesus falou mais sobre o inferno do que do céu" Mas será?...

Creio que a maneira de como o conceito de inferno começou a ganhar força no imaginário judaico e cristão posteriormente, requer uma investigação bem séria e competente. 

O que se sabe com certeza é que não havia nem vestígio dessa doutrina pelo menos não antes do terceiro século antes de Cristo.

Estudiosos atribuem aos persas essa invenção. Outros a colocam como sendo uma contaminação da concepção grega do Hades. Mas seja por qualquer que seja a via, se de fato Jesus fez uso dele em seus discursos não o fez no sentido no qual é compreendido atualmente. 

Seria interessante também analisar alguns paralelos mitológicos que envolvem a questão da perdição e salvação eterna no além mundo. Neste caso já incluiria o real significado de alguns termos que geralmente são empregados nas versões em português como "inferno". Mas sobre isso, desenvolverei em outra oportunidade.

Outra consideração importante que devemos fazer, é até que ponto a "Divina comédia" de Dante Alighieri influenciou a compreensão cristã moderna em torno dessa questão? 

Uma coisa se sabe; Jonathan Edwards soube explorar muito bem o conceito em seu sermão “pecadores nas mãos de um Deus irado”

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Ratzinger. Vilão ou herói resignado?

  Série reflexões


O Concílio do Vaticano II tinha como principal objetivo a modernização da igreja católica.

A série de conferências visava atrair os fieis afastados, e para tanto foi tocado em temas até então muitos delicados.
...

Foram repensadas, por exemplo, a relação da igreja com outras religiões, abrindo assim o diálogo inter-religioso não apenas com as outras tradições cristãs como também com as não-cristãs.

Apesar do concílio conservar a rigidez no tocante ao sexo antes do casamento, ao aborto e ao controle da natalidade, para a ala mais conservadora, ali seria decretada a secularização da igreja.

Ratzinger, que via de regra tem sua imagem associada à inquisição, como não poderia deixar de ser, postou-se como um adversário das reformas e perseguiu os ideais deliberados no Vaticano II.

Por isso é que diante do leque de razões para sua inesperada renúncia, surge no horizonte à oposição da ala modernista da igreja, que não vê com bons olhos o enrijecimento de doutrinas que seus antecessores tentaram flexibilizar.

A começar pela obstrução do ecumenismo até a abordagem de temas “bobos” como o uso de preservativos e anticoncepcionais pelos fieis.

Não acredito que Ratzinger, inteligente e antenado que é, não tenha previsto a invasão do secularismo que caracteriza a igreja católica, sobretudo a européia. Mas certamente foi um duro golpe em sua convicção engessada e conservadorismo extremo.

Certamente ele foi assessorado no sentido de que se continuasse com essa teologia jurássica seria decretada o falência da igreja em outros países europeus, como por exemplo, ocorreu com a França, que definitivamente rompeu com o catolicismo e se abriu ao Islã.

Sem contar com o descontentamento evidente das igrejas latino americana e africana, que sempre viu com bons olhos as teologias libertacionistas.

Por isso é que apesar de encarar sua renúncia como um gesto de grandeza, vejo sua saída como tardia, exatamente pela sua postura anti-modernidade e avessa a contextualização.

Que venha o novo Papa. Novo não somente em idade. Mas sobretudo, com novidades em suas idéias, pautadas na inauguração de um novo paradigma mais sensível as demandas dessa geração emergente.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Culto cristão I

  Série reflexões

A reunião cristã que ao longo da história da igreja passou também a ser chamada de “culto”, é em sua essência uma celebração da comunhão dos crentes e não unicamente um momento de adoração a Deus. Pois a adoração não pode se restringir a um momento ou a um lugar específico para sua prática, mas se concretiza quando e onde estiver alguém disposto para tal. A adoração só tem sentido se estiver em conexão com o serviço voltado para o outro. Ela é um ato interno, mas com uma atitude externa correspondente. Esta é a adoração objetiva, prevista e aceita pelo grande outro.

Neste aspecto, engana-se quem pensa ser a adoração um ato de transcendência onde nossos sentidos são voltados apenas para a esfera metafísica. Ela culmina na vertical, mas tem suas bases estabelecidas no plano horizontal. A recomendação de Jesus, é que ao ofertar a Deus (vertical) e lembrar-se que teu irmão tem algo contra ti “horizontal”, deixa a tua oferta e vai reconciliar com o teu irmão. Ou seja, o caminho para a dimensão vertical (Deus) tem sua gênese na horizontal (homem).

O pensamento vigente em relação ao propósito do momento do culto, faz emergir várias disfunções. Uma delas é a do individuo avaliar sua performance espiritual de maneira subjetiva, atribuindo-lhe validade apenas através de sua assiduidade a estes momentos em detrimento de uma vivência prática e diária da sua consciência crística.

O culto é um fim em si mesmo, e não um meio para alguma coisa. Culto não é apenas algo mentalizado e falado em duas horas de reunião. Culto é um momento de celebração à comunhão cristã e o compartilhamento das experiências e serviços prestados a Deus no espaço de tempo que o antecede.

P.S. Quase todos os termos hebraicos e gregos que definem o termo “culto”, transmitem a ideia de “trabalho” ou “serviço”. E foi com esse pensamento em mente que Paulo desafiou a comunidade cristã a oferecer a si mesma como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que o vosso culto racional. (Rm 12:1)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Anticristão.


                                                          Série reflexões


A obra "anticristo" de Nietzcshe, segundo especialistas deveria se chamar anticristão. Pois é na verdade um ensaio de uma crítica velada do cristianismo. Mas nessa obra ele também gira sua metralhadora contra o budismo, ainda que com palavras mais suaves.

Ele atribui ao cristianismo e ao budismo a alcunha de religiões da décadence. Com a diferença de que o budismo não promete mas cumpre, enquanto o cristianismo promete tudo, mas não cumpre nada.

Sou honesto quando digo que tento mas não consigo tirar a razão do bigodudo quando ele diz que: "os cristãos(...) colocaram de uma vez por todas a si mesmo, a comunidade, os bons e justos de um lado, do lado da verdade - e o resto, o "mundo", do outro... Essa foi a espécie mais fatal de mania de grandeza que até agora existiu sobre a terra: uns pequenos abortos de corolas e mentirosos começam a reivindicar para si os conceitos "Deus", "verdade", "luz", "espírito", "amor", "sabedoria", "vida", como se fossem sinônimos de si, para com isso delimitar o "mundo" contra si;..." 

Até que ponto ele estava certo ainda não sei. Mas vamos refletir! 

sábado, 19 de janeiro de 2013

Não ameis o mundo! Mas como não?

Série reflexões



Qualquer nova leitura do evangelho, que não seja a convencional, soa aos ouvidos dos líderes eclesiásticos como uma apostasia da fé.

Qualquer doutrina com proposta de primazia à vida e à liberdade, logo é tachada de mundana, pois o religioso acredita que deve odiar aquilo que é amado pelo mundo. Logo, não consegue amar o que é tão simples e amável enquanto humanos.

Com a formulação de sua cartilha de regras e princípios morais, a igreja até hoje não percebeu que “tolhimento de liberdade” e certa dose de “injeção de culpa” é uma combinação explosiva.

Pois na tentativa de seguir a risca os homens se tornam mais religiosos que o próprio Deus. O fracasso resulta na produção de sujeitos neuróticos. Que acreditam compensar suas falhas com a negação de prazer.

Colocam toda sua esperança de felicidade no além mundo. Não atentando para o que disse Bonhoeffer: “aquilo que está acima do mundo, no evangelho, tem o propósito de existir para este mundo. É somente quando amamos a vida e o mundo com tal intensidade, que sem eles tudo estaria perdido, que podemos crer na ressurreição e num mundo novo”

Enquanto estivermos nesse mundo, nele estará nosso objeto de felicidade. Ele é a ante-sala do paraíso. Sem a felicidade e prazeres do mundo a qual pertencemos, a felicidade e prazeres do mundo por vir nos serão estranhos quando a ele pertencermos.

E sendo o homem a paixão última de Deus, Ele também é um humanista no sentido de ter na felicidade do homem sua única preocupação.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Jesus & Igreja


  Série reflexões
 
 
 
Jesus não veio trazer nenhum modelo cultural, e nem fundou uma cultura cristã. Aí o ocidente criou o cristianismo como cultura.

Jesus não estabeleceu uma dogmática cristã rígida. Aí surgiu a igreja, que não estava em seus planos, e ordenou seus ensinos articulando um corpo dogmático inflexível.
 
Diante de uma religião com padrões morais valorados acima da vida. Jesus pregou uma moral com coração. Surgiu a igreja e convidou sua comunidade a um retorno ao velho e ultrapassado paradigma.

Jesus veio criar um modelo de convivência tomado por uma atmosfera de amor, paz, reconciliação e reciprocidade antevendo o bem comum. Aí surgiu a igreja que procurou meio de obstacular o acesso a essa realidade proposta por ele.

Jesus veio para aposentar o Deus-lei e revelar o Deus-Pai que indiscriminadamente chamava a todos os homens a terem participação no Reino. Surgiu a igreja e assumiu o monopólio de distribuição de ingressos a esse Reino.

Frequentemente confundem igreja com Cristo, teologia feita por homens com a mensagem de Cristo, moral de leis e mandamentos com o querígma. Mas seria importante distinguir a mensagem de Jesus com as ideologias de um grupo feita através da figura de Jesus.

A igreja, para estar conectada ao que originalmente planejou Jesus, deve romper com o atual status quo, abrir mão desse conceito pragmático patente aos olhos de quem quer ver, e promover a necessária revolução em seu sistema como um todo.

Reforma somente não basta.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Deus, uma invenção!

   Série reflexões

 
Calma, não estou afirmando que Deus não existe. Apenas asseverando que Deus é uma invenção.

Numa consulta rápida da etimologia da palavra invenção, percebe-se que não se trata de produzir algo novo ou a partir do nada. Isso seria uma criação. Mas sim de “encontrar”, de “descobrir”, e isso as vezes de forma acidental.

Inventar supõe a existência de elementos prévios, que devem ser organizados em uma nova disposição.

A propósito, Voltaire propôs uma questão que se tornou clássica: “Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo”.

A frase de Voltaire é um pouco paradoxal. Porque sempre se “inventa” A partir de algo; só se pode inventar Deus a partir de Deus e não a partir de nada.

Paul Tillich disse que “Deus, está acima de Deus. Ou seja, acima do seu nome, acima do discurso que fala dele, acima dos qualificativos que atribuímos a ele, acima do que percebemos dele, acima das nossas ideias e sacramentos, acima do nosso pensamento e de nossa compaixão.”

Neste sentido podemos afirmar que Deus, a “ideia de Deus”, é uma “invenção” particular de cada religião ou de cada um. Uma invenção para falar e revelar o “que” ou “aquele” que está muito além de nossas linguagens. Uma invenção que nos permite nomear e designar atributos ao inventado. De dar a ele rostos e personalidades.

O homem sempre será o inventor, e Deus o inventado. Como somos de Deus e dependemos de Deus para inventar, poderíamos, de certa forma concluir que “Deus é uma invenção de Deus”. E o homem como seu parceiro e interlocutor, fez a mais bela das invenções: Deus.

Bibliografia: Deus: uma invenção? René Girard, Teologia sistemática, Paul Tillich

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Deus não é cristão


Série reflexões.

 


É claro que Deus não é cristão. Seus cuidados são para todos os seus filhos. Há uma história judaica que diz que logo após o episódio do afogamento dos egípcios no Mar Vermelho, enquanto os israelitas celebravam, Deus os interpelou: "como podeis celebrar quando meus filhos se afogaram?"

A maioria dos cristãos acredita obter uma procuração para sustentar os gritos de exclusividade a partir da Bíblia citando o texto de João: "Ninguém vem ao Pai a não ser por mim".
...
Felizmente para aqueles que declaram que o cristianismo não detém direitos proprietários e exclusivos sobre Deus, como se Deus fosse um cristão de verdade, há uma extensa coleção de evidências bíblicas que sustentam tal argumento.

Que os cristãos não tem monopólio sobre Deus é observação quase banal. Clamar que Deus é uma exclusividade dos cristãos é torna-lo muito pequeno e, em verdade seria uma blasfêmia. Deus é maior que o cristianismo e cuida de mais do que apenas dos cristãos.

Deus não pode ser cristão, pois os acidentes do nascimento e da geografia determinam em grande medida, a que fé você pertence. Seria perfeitamente razoável imaginar você como seguidor da fé que agora denigre, caso tivesse nascido "lá" e não "aqui".

Inspirado na monumental obra de Desmond Tutu, Deus não é cristão.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012




A intersexualidade de Deus

Ser um homem feminino
Não fere o meu lado masculino
Se Deus é menina e menino
Sou Masculino e Feminino... (Pepeu Gomes)


Segundo a psicanálise, em termos simplistas, o homem quando julga seu semelhante, o faz pela consciência paterna (masculina). Quando o ama e o perdoa, o faz pela consciência materna. (feminina)

Muitos teólogos, entre eles a criadora da teologia feminista Rosemary Ruether, defendem a ideia de que este mesmo dualismo de gênero sexual pode ser encontrado em Javé. O psicanalista Judeu Erich Fromm, em a “Análise do Homem”, diz algo interessante para que se possa entender o peso do princípio paterno e materno no conceito “Deus” da tradição Judaico-cristã:

“O Deus que manda o dilúvio porque todos são fracos, exceto Noé, representa a consciência paterna. O Deus que fala a Jonas com compaixão por aquela grande cidade em que vivem mais de seis vintenas de milhares de pessoas que não sabem distinguir a mão direita da esquerda, fala com a voz da Mãe que a tudo perdoa sempre.”

O teólogo Eduardo Medeiros, em sua análise bíblica sobre a questão, desenvolve sua tese com base em um dos nomes atribuídos a Deus no Antigo Testamento, mais especificamente o Shadai.

Segundo ele, “o nome Shadai para Deus aparece no livro de Jó. É o nome menos comum para a divindade hebraica, aparece apenas 48 vezes, contra as 6 mil vezes de Javé e 2 mil vezes de Elohín. Mas por que será que o autor de Jó, escritor de um alto poder de reflexão teológica e filosófica, escolheu exatamente esse nome?

Os dicionários geralmente traduzem Shaday por "Todo-Poderoso", "onipotente"; mas o nome não diz só isso, está incompleto. Shadai é um "DEUS-MÃE": carinhoso, amoroso, terno, providente, generoso.

A palavra Shadai vem de "shad" que quer dizer: mama, seio, úbere. Expressa a ideia de fartura, feminilidade, abundância, ternura, carinho, amor.

Quando Deus apareceu a Abraão e lhe prometeu "muitos filhos", o nome que aparece é Shadai, ou seja, o Deus dos seios maternos que têm leite em abundância para milhões de filhos.

O Shadai está de pleno acordo com o "Deus é amor" do evangelho de João. Certa vez o Papa João Paulo I falou que "Deus é pai e Deus é mãe" e criou um burburinho teológico: seria uma nova teologia papal? Não, essa "teologia" já estava lá nos antigos tempos do gênesis.

E é exatamente esse Deus que possui tetas para alimentar amorosamente seus filhos que Jó invoca. O personagem ali tipifica a própria tragédia humana, queria o consolo do Shadai.


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Estou pessimista sou!

 


Por Donizete

Estou começando a ficar pessimista quanto ao encarar a vida e ver nela ainda que seja um fio de esperança. Seria isso uma conversão ao existencialismo filosófico ou é o primeiro sintoma de uma crise existencial por vir? Penso não ser nem um dos dois. Mas estou operando atualmente dentro de um sistema com visão de que não vale a pena acreditar no valor da existência. Que jamais vai haver melhoras à nível moral e material no mundo. E nem progresso nas condições sociais ou qualquer evolução para melhor, seja em que campo for.

Sei que o pessimismo é antes de tudo existencial e metafísico. Mais são as contingências concretas e vividas empiricamente que nos traz esta sensação de impotência ante as demandas da vida. De ver as coisas acontecendo em total antagonismo com aquilo que objetivamente desejaríamos ver. O que faz suscitar a dúvida: será que a felicidade é quimera, pura ilusão? Como fumaça que se levanta mais logo se vai com o vento? Efêmera como a vida? Estou começando a acreditar piamente que Schopenhauer tinha razão ao dizer que viver é sofrer com pequenos instantes de felicidade. Sim, ele estava certo, pois a vida é de fato essencialmente tristeza e sofrimento. Note que no período em que estamos acordados são raros os lampejos de euforia alegria e prazer. No mais são momentos pautados pela preocupação, pelo “correr atrás de” ou “livrar-se de”, da “busca incessante por”. São momentos dominados pelo desejo que nos traz a lembrança de que algo nos falta, da saudade nostálgica, do tédio, da melancolia, da ansiedade angustiante e sentimentos outros, que se não são sofrimento em si, a linha que os separa é tênue demais para ser percebida. Até mesmo aqueles momentos de contemplação, onde temos a sensação de que nossos sentidos nos abandonam, também comunica tristeza e depressão. A tristeza está contida na voz do cantor. Nos versos do poeta.

A força que nos move e faz com que esta realidade tenha seu efeito nocivo atenuado, é a esperança que um dia, quem sabe, consigamos alcançar a tão esperada ataraxia. Mas aí também emerge outra questão não menos perturbadora. Que é o fato da ataraxia estar intrinsecamente associada à apatia, a total insensibilidade às paixões, ao desejo, ao prazer e a dor. Que felicidade é esta? Seria pior ao meu ver, viver cotidianamente estes ciclos intermináveis, irritantemente repetitivos. Sem a mínima dose de prazer. Melhor ficar como está.

Será que a existência é um completo sem sentido? Assim pensava Kierkegaard. Nestes mesmos termos ponderava Nietzcshe. Heidegeer que o diga. Sidarta Gautama afirmou que enquanto estivermos atados ao fio da nossa existência iremos sofrer. O velho Buda tinha plena razão ao dizer que o homem sofre ao nascer, sofre ao envelhecer, sofre quando se está enfermo, quando se une com aquilo que é des-prazeroso ou se separa do que lhe é prazeroso. Sofre ao não obter o que quer. Enfim, sofre quando morre.

Ser desiludido com sua própria existência não é prerrogativa dos fracos. Grandes espíritos também são. E tornou-se um sentimento tão comum que proliferam como praga os livros e palestrantes de auto-ajuda. Que prometem revolucionar os humores e expectativas das pessoas com receitas tolas e infantis, tipo: “pense positivo” “recite frases otimistas” “diga não ao pessimismo” e outros mantras ridículos que surtem efeitos apenas em espíritos fracos. Aliás, esta tem sido a tônica das mensagens pregadas também nos púlpitos de muitas igrejas.

É desonestidade intencional objetivar manter as pessoas presas nas rédeas da ilusão com promessas mirabolantes, gerando nelas a idéia de estarem vivendo num mundo surreal sob a expectativa de que mal nenhum os atingirá. Quando sensato seria dizer para as pessoas que o acaso é caprichoso. Por isso devem estar agradecidas pelo fato de terem sobrevivido por mais um dia, sem que um carro desgovernado atropele seus filhos que brincavam no play ground da escola, sem que o avião no qual viajou sua esposa tenha caído. Sem que tenha sido vitimado por um assaltante. Sem que seja atingido por uma bala perdida, ou acometido por uma doença grave qualquer. Enfim, considere-se um sujeito afortunado por ter sobrevivido por mais um dia nesta terra de ninguém. Um mundo sofredor. Inexoravelmente sofredor.  

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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Homo Philosophicus




EL, EL, EL, GABRIEL (Adriana Calcanhoto)


Porque o fogo queima? Porque a lua é branca?
Porque a terra roda? Porque deitar agora?
Porque as cobras matam? Porque o vidro embaça?
Porque você se pinta? Porque o tempo passa?
Porque que a gente espirra? Porque as unhas crescem?
Porque o sangue corre? Porque que a gente morre?
Do que é feita a nuvem? Do que é feita a neve?
Como é que se escreve Réveillon ?

A filosofia está em todos os lugares, porque cada um de nós, ao longo da vida, se confronta com perguntas filosóficas. Sejam elas das mais simples até as mais complexas. As perguntas filosóficas são compainhas constantes. Do berçário até à clínica de repouso para idosos, nunca paramos de pensar e falar sobre questões filosóficas. Pode haver dúvidas sobre o quanto os seres humanos são realmente sábios, mas é indiscutível o quanto somos filosóficos. Nossa espécie deveria ser chamada de “homo philosophicus”.

O fato de essa onipresença da filosofia não ser de conhecimento comum é em si próprio uma manifestação do seu paradoxo. A maioria das pessoas não percebem que muitas das perguntas sobre as quais vem refletindo sozinha ou na compainha de amigos estão na própria raiz da filosofia.

À exemplo do Gabriel, quando você era pequeno, torturava os adultos assim como você se sente torturado diante das mais variadas perguntas que as crianças lhe fazem.

Quem nunca se irritou diante da insaciável curiosidade e sede de conhecimento que elas possuem, demonstrados nos seus inumeráveis porquês? Quando elas entram na fase de descobrir, querem saber a fundo a utilidade prática de tudo que lhe está sendo ensinado e dos objetos à sua volta. Geralmente elas querem saber a causa de um evento que elas presenciam. Logo que a causa daquele evento lhe é explicada ela quer saber o que causava aquela causa. Via de regra os pais se estressam antes que a curiosidade da criança em relação à cadeia de causas se esgote. Contudo, quando pesquisadas com tenacidade e criatividade suficientes, essas perguntas comuns e simples crescem e se tornam grandes sistemas filosóficos. Aliás são assim que eles nascem.

Sócrates utilizava-se deste método na sua busca de conhecimento. Com a premissa de que nada sabia, fazia uma série de perguntas ao seu interlocutor, e mediante a perplexidade a que as respostas iam dando origem, o levava a uma depuração intelectual, e consequentemente a descoberta da verdade em questão.

Ter uma mente questionadora é uma virtude inata do ser humano. A reflexão é uma das faces maravilhosas da nossa tradição. Nosso principal estímulo é de que a filosofia não é apenas para pessoas brilhantes e de outro mundo, mas simplesmente para as pessoas que pensam, de almas curiosas.

Perguntaram, certa vez, a um filósofo: “Para que filosofia?”. E ele respondeu: “para não darmos nossa aceitação imediata às coisas, sem maiores considerações”.

domingo, 8 de julho de 2012

DIÁLOGO COM BASE NO MÉTODO HISTÓRICO-CRÍTICO




Por Donizete

Este texto abriga um diálogo entre eu (Doni), a Mari e o Edu, publicado originalmente na forma de comentários de um texto em meu blog.  O leitor detalhista poderá notar algumas frases desconexas, falhas na estruturação textual e até erros ortográficos. O que é normal por tratar-se de uma conversa casual e despretensiosa entre nós. A princípio pensei em fazer algumas adaptações, mas de comum acordo e com a intenção de preservar a originalidade do que pensamos naquele momento, preferimos não editar nada em nossas falas.

MARI. Gostaria de lhes fazer umas perguntas: sobre a interpretação bíblica, sempre soube que não se pode utilizar um versículo isoladamente para fundamentar uma doutrina. Mas qual deve ser o contexto? Um texto? Um capítulo ? Um testamento? Pois a Bíblia é um livro que é uma coletânea. Uns são proféticos, outros não. Uns canônicos, outros apesar de não canônicos também são utilizados como referência não é? Então qual é o contexto? A Bíblia como um todo? É sempre assim?

DONI. Um dos problemas que surgiram após a divisão da Bíblia em capítulos e versículos, foi exatamente ao acentuar a possibilidade de se desconectar fragmentos de um texto, e particularizar uma interpretação que não estava originalmente no pensamento do autor. Infelizmente isso acontece com frequência.
Por isso que uma das regras elementares da hermenêutica, é de que o contexto (macroexegese) deve ter a prioridade no entendimento das escrituras. Como não sou defensor da inerrância, não acredito que a Bíblia a si mesma interpreta, como advoga alguns. Existem elementos da história e da ciência, que precisam ser adicionados para uma melhor compreensão. O entendimento do contexto literário e histórico também é fundamental, pois muitos textos tiveram valor apenas temporal. Considerando também que todos os escritores bíblicos viveram num mundo pré-científico, e seu conhecimento do mundo era primitivo, segundo nossos padrões. Então não podemos adotar a cosmovisão deles e a partir dela buscar o modelo para a nossa realidade. Outra regrinha básica da hermenêutica, é de que, se dois textos parecem contradizer um ao outro, o mais claro deve lançar luz sobre o ambíguo.

EDU, Eu não seguiria essa regrinha não...
Eu diria que quando dois textos bíblicos se contradizem (e existem centenas deles nessa situação) o problema é a diferente visão de cada autor sobre a questão tratada.

MARI. Sabe que fiquei pensando em uma coisa. Se a Bíblia é um livro inspirado e seu objetivo é unidade, já que segundo dizem, ela é a única fonte que devemos adotar quando o assunto é Deus, não é uma contradição que haja tanta contradição? Pois até mesmo aquela questão sobre a imagem que podemos formar de Deus, a Bíblia apresenta duas versões: no velho testamento Deus iracundo, no novo Deus pai bondoso. De um lado, um Deus que tudo faz por amor, Do outro um Deus que é segundo dizem alguns "fogo consumidor". Então, essa história de texto mais claro não é subjetivo também? 

DONI. O Antigo Testamento foi escrito numa conjuntura em que a religião era estatal. Javé era Deus dos exércitos, guerreiro e vingativo. A figura do diabo ainda não existia. Não era considerada naquele contexto. O fator causalidade era considerado de forma acentuada no pensamento hebreu. E boa parte desse pensamento continuou vigente na igreja nascente. Lembra de Ananias e safira, e o castigo imediato sofrido por Herodes? Ambos os casos relatados no livro de atos. A questão é que os escritores atribuíam a Deus a responsabilidade inclusive por estes atos. Mas na verdade Mari, Deus sempre foi o mesmo! A conjuntura é que determinava quais seriam seus atributos mais atuantes, a partir da interpretação de cada escritor.
Lembra que na idade média, a própria igreja colocou uma armadura em Jesus e o convidou para as cruzadas? É uma questão de cosmovisão!

 EDU.  Destaco sua pergunta: "não é uma contradição que haja tanta contradição?"
Eu te respondo, não! Seria esquisito sim, se uma coletânea de textos religiosos escritos num período de 1600 anos se harmonizassem perfeitamente uns com outros. Aí sim, teria algo de muito errado.
 As contradições da Bíblia são o reflexo do pensamento e da fé do Israel antigo; os escritores bíblicos não eram anjos e sim homens, com todas as suas contradições, ambiguidades e visões particulares do mundo e de Deus. Num cenário assim, o contraditório é esperado e até desejável. Logo, esqueça daquelas teorias ortodoxas da "inerrância bíblica" e da "inspiração plena ou verbal"

 MARI. Eu já esqueci!!! rs... E meu questionamento foi feito porém sob essa ótica de quem acredita nisso piamente. Como acreditar na inerrância diante desses dados? Isso que você falou é o que eu acredito também, já falei isso em outros comentários. O que quis saber é como que a teologia afirma que a bíblia foi inspirada por Deus, e nesse caso é a verdade absoluta, como ela explica essa contradição e consegue afirmar tudo isso? A partir de quando essa idéia acompanha a igreja? Foi logo que a bíblia foi compilada? Foi por causa de algum dado histórico ou naturalmente se aceitou que o texto bíblico é a verdade sobre Deus? Enfim, em qual momento a bíblia foi santificada como a quarta pessoa da trindade?

EDU. Sou um questionador dessa confissão. Na verdade, Deus nunca falou uma única palavra do que está escrito na bíblia, cada escritor, profeta, rei, soldado, pescador, farizeu, etc, lhe pôs as palavras em sua boca conforme recebia do próprio inconsciente. Os fundamentalistas, autores da doutrina da inerrância, costumam fazer verdadeiros exercícios para conciliar as contradições (ou cosmovisões) diferentes da bíblia, já que eles não aceitam que haja tais cosmovisões. Até hoje os conservadores evangélicos gostam de citar textos do AT para justificar algum padrão moral, se esquecendo de levar em conta todo o contexto em que tais livros foram escritos. E digo mais, muita coisa no NT também segue o mesmo caminho, ou seja, textos que nada têm a nos dizer se forem lidos literalmente. Relativizar ensinos bíblicos é necessário para não se cair em anacronismos. Mas os ortodoxos se arrepiam quando ouvem dizer que a bíblia deve ser relativizada e continuam tomando para si (e querendo impor aos outros) ensinos que já não tem nenhum valor prático para o homem pós-moderno.(e até mesmo para a prática de fé do homem pós-moderno)
Por outro lado, quando descobrimos que a bíblia possui uma camada de leitura mais profunda do que o literal que está na superfície (como fazem e fizeram muitos rabinos e cabalistas), então descobriremos de fato, tesouros escondidos no texto bíblico.

DONI. Com a reforma protestante, um lema ganhou destaque: “sola escriptura”, mas o conceito de inerrância como conhecemos hoje, só ganhou força mesmo no início do século XX, com o advento do movimento fundamentalista, que tentava com isso conter o avanço do pensamento liberal. Mas este pensamento retrocede no mínimo ao momento histórico em que foi fechado o Cânon do novo testamento! Entretanto, ainda que muitos não aceitem, existem controvérsias sobre o resultado dessa deliberação. Alguns estudiosos supõe que pode ter havido falha, tanto na seleção como no critério para concluir a canonicidade de um escrito. Tanto é verdade que Martinho Lutero depreciava as carta de Tiago, Hebreus, e até o Apocalipse. Ele colocava em cheque a canonicidade destas epístolas. 
Pode ser que algum livro de autoridade tenha ficado de fora da lista? Só os fundamentalistas admitem que não.

EDU. Existem narrativas bizarras sobre a forma de se chegar ao cânon do NT. Uma dela nos diz que os evangelhos escolhidos foram quatro, por que dentre outras coisas, quatro eram os pontos cardeais...(citado por Voltarie) imagina se dá para levar essa construção canônica como algo inspirado pelo espírito santo?

MARI. Edu, não seja MALÉFICO! rs.. Eu pensei que houvesse motivos mais profundos para escolha dos livros.
Outra coisa, se Deus escolheu os simples, por que deixaria um livro com tanta complexidade? Veja que para fazer uma interpretação, é preciso fazer certas análises e conhecer o contexto histórico e etc...

DONI. A premissa de que devo ser capaz de abrir a bíblia e compreendê-la porque ela é a palavra de Deus é falha. Essa ideia foi concebida pelos pietistas, que criam na clareza das escrituras. Para eles as escrituras era simples o bastante para que uma criança a compreenda. Veja que os pietistas criaram suas próprias doutrinas, se isolaram por serem diferentes, resultado: O movimento não resistiu por muito tempo.
O problema começa Mari, com a simples constatação de que a Bíblia não foi escrita na nossa língua. Nesse primeiro estágio já nos tornamos dependentes da credibilidade dos tradutores. Aí que se encaixa a tarefa do teólogo, que diga se passagem é complexa demais! Porque à Bíblia não é uma teologia sistemática, e nem nos apresenta exposições doutrinárias organizadas. Cabe aos teólogos esse trabalho.

EDU. Estes devem andar de  mãos dadas na desconstrução da dogmática. 

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domingo, 24 de junho de 2012

COMUNIDADE UTÓPICA



Por Donizete

O homem até tenta desenvolver sua espiritualidade de maneira autônoma, livre da interferência de terceiros. Mas como disse no texto anterior, não há meios que permitam a concretude desse interesse.

Somos carentes de vida em comunidade, ninguém deve usurpar de si esta prerrogativa! O que não podemos ignorar é a diferença abismal que existe entre “agrupamento” e “comunidade”.

Comunidade pressupõe partilha de interesses e cuidado protetor mútuo, enquanto agrupamento é uma simples agregação de pessoas com raros objetivos comuns, pontuados às vezes apenas pelo cinismo utilitarista. Esta ruptura social, podemos chamá-la assim, é própria de grandes centros urbanos, que mesmo sendo densamente povoado, tem como isolamento e solidão sua principal marca, característica inexorável de uma convivência forçada entre as pessoas.

Na mente de muitos impera o famoso aforismo “antes só do que mal acompanhado”. Mas no meu humilde ponto de vista, o pensador Paul Valery está com a razão, quando diz: “um homem sozinho está sempre em má companhia”.

Por estas e outras razões que, em meus devaneios traço o perfil da comunidade cristã que procuro.  Uma comunidade que atenda às minhas expectativas. Utópicas? Sim! Mas tenho a esperança como um princípio vital. Devemos sempre sonhar com o mais e o melhor. A esperança não é nem realidade nem quimera, ela é quem sustem nossa luta pelo desejado, ansiado e querido.

Por isso publiquei em redes sociais este cartaz:

Procura-se uma comunidade que não obstante, jamais se deixar influenciar pelo secularismo, atente com uma outra ótica para a geração pós-moderna, contextualizando-se. 


Que conceba os problemas existenciais que emergem como resultado de nossa humanidade, e não como déficit de uma espiritualidade tradicional forjada em seu próprio arcabouço doutrinário.


Uma comunidade que tenha uma consistência teológica em sua cosmovisão, com capacidade de observar a cultura criticamente, identificando nela os pontos de contato com o evangelho e os pontos que funcionam como antídoto ao evangelho.

Uma comunidade que não sucumba ante a religiosidade, que ensine que a performance pessoal, a moralidade acima da média e o intenso ativismo, decisivamente não deve ser confundida com a legítima espiritualidade cristã. 

Procura-se uma comunidade que tenha resistido ao mercado da fé, que não tenha transformado o evangelho em um “business” e seus pastores em executivos visionários, que fazem do púlpito um balcão de negócios.

Uma comunidade que esteja disposta a renunciar a rotulação de reformados, evangélicos, católicos, e outras terminologias, para se definir estritamente como discípulos de Cristo, tendo consciência da amplitude que tal definição acarreta.

Uma comunidade, que quando for atuar diretamente na esfera política-social, seja de fato um agente de transformação, e não um agente de manipulação das massas, para que seus líderes alcancem o poder com a mesma motivação corrupta daqueles que o detém na atualidade.

Uma comunidade cujos líderes, se abdiquem de um modelo de igreja cheia de eventos, encontros, congressos e atividades que servem apenas como meio de receita, para se abrir a uma predisposição de fazer menos com mais objetividade, e canalizar seus recursos na sua totalidade no bem estar do ser humano.